Era uma vez uma menina de 16 anos, que resolveu criar um blog para desabafar... E que agora, aos 21, continua a escrever. De teen a adulta; de Portugal à Holanda - A saga!

08
Nov 06
Tenho que confessar que, por vezes, a minha avó irrita-me. Sei que não faz de propósito (pelo menos a maioria das vezes), mas ainda assim, há coisas que conseguem ultrapassar o meu nível de cordialidade.

Ainda assim, tenho um carinho muito especial por ela. É uma mulher forte, que desde miúda foi sujeita a situações tais que eu própria estou certa que não aguentaria. No entanto, hoje ainda está aqui, forte e tão saudável quanto o possível (73 anos já não é brinquedo).

Hoje ela veio para nossa casa para nos mostrar, a mim e à minha mãe, uma gravação que o meu avô terá feito, há uns 12 anos atrás. Trata-se de um gravador de som, daqueles antigos, em que se usavam as cassetes pequeninas. Após alguns minutos de música (constatei que o meu avô gostava da Cher e do Nelson Ned), começam então as falas. Era uma conversa, sem muito de interessante, entre a minha avó, a sua mãe (minha bisavó, também conhecida como “avó velhinha”) e o meu avô. Dos três, só a minha avó está viva.

E ali estava a minha avó. Cruzou os braços sobre a mesa, aconchegou a cabeça sobre os braços e ficou a olhar para o vazio e a escutar as vozes do passado. A voz da sua mãe, já falecida há 6 anos. A voz do seu marido, falecido há pouco menos (ou seria há pouco mais?). A sua própria voz, mais lúcida, mais viva. Mais nova.

E a observá-la ali, tão impávida e serena, a recordar os momentos do passado, fiquei com um nó na garanta. Não só porque sinto a falta do meu avô e da minha avó velhinha (e do seu irmão, o tio Manel, que faleceu cerca de 3 meses depois dela), mas também pela minha avó.

Porque deve ser triste saber que, das pessoas que ali estavam a falar tão bem umas com as outras, só ela ainda cá está. Porque todos os dias lhe devem vir à cabeça as recordações de dias, tempos, palavras e acções que ficaram lá atrás. E por mais que ela as chame, não voltam.

Os dias em que o meu avô a ia espreitar enquanto ela lavava no tanque de Ferreira do Alentejo (ninguém me tira da cabeça que ela, desde esse dia, passou a lavar roupa com muito mais frequência). O dia em que o meu avô lhe “roubou” um beijo (na cara) e a minha avó ficou doente, um beijo sem estarem casados, onde é que já se tinha visto. Os dias em que vivia com o seu tio Manel, que foi mais seu pai do que o próprio. Das traquinices dos meus tios e, especialmente, da minha mãe, que era a mais terrorista dos três.

Tudo isto e muito mais são momentos que não voltam. Que, no livro da sua vida, ficaram em páginas, lá para trás. Agora, na página em que está, resta-lhe tentar fazer tudo para agradar a filhos e netos. Mas os olhos sonhadores que vi naquela cara, hoje, de cabeça encostada aos braços sobre a mesa, são os olhos de quem já muito viveu e que, se lhe dessem a oportunidade, não se importaria de voltar algum tempo atrás.

Mais que não fosse, para dar aquele último beijo ao “seu” António.
publicado por Nana às 20:44

comentários:
Muito bonito este teu post :)

Beijos Nanit
Pluma(princesavirtual) a 10 de Novembro de 2006 às 22:16

Uma lágrima espreitou e quase rolou ao lêr as tuas palavras! Uma simplicidade imcrivel na descrição que fazes desse momento! A tristeza dos velhos (desculpa tratar assim), será um dia também a nossa tristeza ao recordar as pessoas que hoje estão presentes mas que não estarão mais depois! É a lei da vida...ainda sou novo, 26 anos apenas, mas já perdi o meu pai e um sobrinho com 21 anos apenas...É duro! Mas temos de olhar em frente...sempre em frente, porque quem partiu olhará por nós para sempre! Beijo grande e bom fim de semana! :-)
Gaybriel a 10 de Novembro de 2006 às 19:22

Oi!Deve ser difícil para ela...acredito que se deve sofrer muito quando já não temos entre nós aqueles que amamos!
Beijinhos!
sis a 9 de Novembro de 2006 às 23:28

Oies**...acredito k ela tivesse uma imensa vontade de voltar atras e que deve ter sentido uma solidão bem grande por saber k é a unica deles k ainda esta ca. Mas a vida é mesmo assim...feita de recordações...;)
Jokinhas***
katya a 9 de Novembro de 2006 às 20:49

Novembro 2006
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
24
25

26
27
28
29
30


tags

todas as tags

mais sobre mim
pesquisar
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Se os virem... Avisem!
Eu, por acaso, gosto desta!
E quantos são? (desde 30.07.2008)
blogs SAPO